Wiki · Aves
Caturra
Tudo sobre a caturra em Portugal: temperamento, gaiola mínima, alimentação, saúde, ruído em apartamento, custos reais e veterinário aviário.

Ficha técnica
8 camposAustrália — zonas áridas, savanas e bosques abertos do interior do continente
Sociável, curiosa, dócil quando habituada ao manuseio, vocal ao amanhecer e ao crepúsculo, sensível a mudanças de rotina
Gaiola mínima de 60×40×70 cm para um exemplar (preferível voadeira de 80-100 cm de largura); 2-4 horas diárias fora da gaiola em ambiente seguro; poleiros naturais de diâmetros variados, brinquedos para roer, banho de chuveiro ou taça 2-3 vezes por semana
60-150 € em criador anelado; mutações raras (pérola, lutino, arlequim de qualidade) podem chegar aos 200 €
Visão geral
A caturra (Nymphicus hollandicus), também conhecida como caturrita ou cockatiel, é uma pequena cacatua originária da Austrália e provavelmente o psitacídeo de companhia mais popular em Portugal a seguir ao periquito-australiano. Reconhece-se pela crista erécteis no topo da cabeça, pela longa cauda afilada e pelas manchas circulares laranja nas faces, mais vivas nos machos.
É uma ave de porte médio-pequeno que combina o temperamento dócil das cacatuas com um tamanho compatível com a maioria dos lares. Bem socializada desde jovem, torna-se extremamente afectuosa, aprende a vir à mão, assobia melodias e tolera bem o convívio diário. É, no entanto, uma ave que exige tempo, espaço de voo e companhia — não é um animal decorativo de gaiola.
História e origem
A caturra foi descrita cientificamente em 1793 por Robert Kerr e os primeiros exemplares chegaram à Europa em meados do século XIX, vindos directamente do interior árido australiano onde vive em bandos nómadas que seguem as chuvas. Desde a proibição australiana de exportação de fauna selvagem, em 1894, todas as caturras vendidas em Portugal e na Europa são descendentes de exemplares já em cativeiro há mais de cem anos, o que produziu mais de uma dúzia de mutações de cor estáveis. Em Portugal a espécie consolidou-se entre criadores amadores nos anos 80 e 90 e hoje encontra-se facilmente em criadores anelados associados a federações ornitológicas como a CPA — Confederação Portuguesa de Aves.
Características físicas
A caturra mede 30-33 cm da ponta do bico ao final da cauda — sendo que a cauda representa praticamente metade do comprimento total — e pesa entre 80 e 120 g em adulto. Possui uma crista móvel que indica o estado emocional: erecta na curiosidade ou alarme, descontraída no repouso, colada à cabeça em situação de medo ou agressão.
- Coloração selvagem (cinzenta): corpo cinzento-acastanhado, face e crista amarelas no macho (cinzenta na fêmea), bochechas com mancha laranja viva, asas com banda branca e cauda barrada de amarelo na fêmea.
- Dimorfismo sexual: nos exemplares cinzentos clássicos é evidente após a primeira muda (cerca de 6-9 meses) — o macho perde as barras na cauda e ganha cabeça amarela; a fêmea mantém barras amarelas debaixo da cauda.
- Mutações comuns em Portugal: lutino (amarela com olhos vermelhos), pérola, arlequim (pied), canela, branca de cara branca e várias combinações. Em mutações como lutino e arlequim o dimorfismo torna-se difícil ou impossível à vista, exigindo sexagem por DNA.
- Bico e patas: bico curto, robusto e cinzento-escuro, adaptado a triturar sementes; patas zigodáctilas (dois dedos à frente, dois atrás) para trepar.

Temperamento e comportamento
A caturra é uma ave gregária que, na natureza, vive em bandos de dezenas a centenas de exemplares. Em casa, isto traduz-se na necessidade clara de companhia — quer outra caturra, quer interacção diária prolongada com a família humana. Um exemplar único deixado horas sozinho pode desenvolver gritos de chamamento (o chamado flock call), arrancamento de penas e estereotipias.
É geralmente a melhor escolha em psitacídeos para quem procura uma ave dócil e manuseável: macho ou fêmea aceitam bem subir à mão, deixar-se acariciar na cabeça e até dormir no ombro. Os machos costumam ser mais vocais e tendem a aprender melhor melodias e a imitar assobios, alguns chegando a reproduzir palavras simples — embora a fala não seja o seu forte (ao contrário do periquito-australiano). As fêmeas tendem a ser mais reservadas mas igualmente afectuosas. O ruído é moderado em volume mas regular: chamamentos altos ao amanhecer e ao fim do dia são normais e devem ser considerados antes da aquisição, especialmente em apartamento com paredes finas.
Cuidados (alimentação, exercício, grooming)
Gaiola/Voadeira: a dimensão mínima absoluta para uma caturra é 60×40×70 cm de altura, mas o ideal é uma gaiola rectangular ou voadeira com pelo menos 80-100 cm de largura — a caturra precisa de espaço horizontal para bater asas. Espaçamento entre barras de 1,5 a 2 cm, barras horizontais em pelo menos uma face para trepar, e bandeja de fundo lavável. Evite gaiolas redondas (desorientam a ave) e gaiolas com revestimento epóxi de origem duvidosa. Coloque-a numa zona social da casa mas longe da cozinha (vapores antiaderentes de Teflon são fatais para psitacídeos) e de correntes de ar.
Alimentação: a base deve ser uma mistura de sementes específica para caturras (girassol em pequena quantidade, painço, alpista, aveia descascada) complementada ou substituída por extrudido (pellet) próprio para psitacídeos médios — marcas como Versele-Laga NutriBird, Harrison's ou Tropican estão disponíveis em lojas portuguesas. Diariamente, ofereça vegetais frescos: couve, brócolos, cenoura ralada, pimento, ervilhas. Fruta 2-3 vezes por semana (maçã sem grainhas, pêra, melão). Nunca abacate, chocolate, cebola, alho, sal nem álcool — todos tóxicos. Osso de choco e grit mineral disponíveis em permanência. Água limpa renovada todos os dias.
Tempo fora da gaiola e voo: mínimo 2 horas diárias num espaço seguro — janelas fechadas, espelhos cobertos, panelas tapadas, outros animais afastados. O voo livre fortalece músculos peitorais e previne obesidade. Não corte as penas de voo de forma sistemática (prática controversa entre veterinários aviários portugueses) — pode comprometer o desenvolvimento e o equilíbrio psicológico da ave.
Enriquecimento (brinquedos, banho, treino): 3-5 brinquedos rotativos: cordas naturais de sisal, ramos de árvores não tratadas (macieira, salgueiro, eucalipto), papel para rasgar, sinos seguros e foraging toys que obrigam a procurar comida. Ofereça banho 2-3 vezes por semana em taça rasa ou borrifador com água tépida — caturras adoram. Sessões curtas de treino com clicker e reforço positivo (sementes de girassol como recompensa) mantêm-na mentalmente activa.
Saúde e esperança de vida
A caturra é uma ave robusta quando bem alimentada e mantida em condições higiénicas, mas é especialmente susceptível a algumas patologias respiratórias e digestivas. Em Portugal, é fundamental encontrar um veterinário com competência aviária — existem clínicas especializadas em Lisboa, Porto, Coimbra e Algarve, mas não em todas as cidades. As caturras escondem sinais de doença até estados avançados, por instinto de presa, pelo que qualquer alteração de comportamento merece consulta urgente.
- Doença do bico e penas dos psitacídeos (PBFD): infecção por circovírus, causa perda anormal de penas e deformação do bico. Sem cura, prevenção por aquisição de aves testadas.
- Megabactéria (Macrorhabdus ornithogaster): infecção fúngica do estômago, comum em psitacídeos pequenos. Sintomas: emagrecimento progressivo, regurgitação, sementes inteiras nas fezes.
- Fígado gordo (lipidose hepática): consequência directa de dieta exclusivamente baseada em sementes de girassol. Previne-se com dieta variada e extrudido.
- Aspergilose: infecção fúngica respiratória favorecida por humidade alta e fundo da gaiola sujo. Sintomas: respiração ofegante, mudança de voz, cauda a balançar.
- Doença reprodutiva nas fêmeas: postura crónica de ovos (mesmo sem macho) leva a hipocalcemia e retenção de ovos — emergência veterinária.
- Giardíase e parasitas internos: sobretudo em aves recém-adquiridas; despiste por análise fecal recomendado no primeiro mês.
Sinais de alerta a observar diariamente: penas eriçadas durante o dia, olhos semicerrados, dormir muito em pé num só apoio, fezes verdes ou aquosas, falta de apetite, respiração com ruído ou bico aberto, perda de peso (pese mensalmente em balança digital de cozinha). Qualquer destes sinais justifica consulta no próprio dia.
Adequação (apartamento, crianças, outros animais)
Iniciantes: sim, é uma das melhores escolhas de psitacídeo para quem nunca teve aves — porte manuseável, temperamento dócil, custos contidos e bibliografia abundante em português. Exige no entanto disponibilidade real de tempo e disposição para aprender sobre alimentação correcta.
Crianças: tolera o convívio com crianças a partir dos 8-10 anos, sob supervisão. Não é uma ave para ser segurada com força nem perseguida pela casa — pode morder defensivamente (a mordida não é grave mas dói). Crianças mais pequenas raramente respeitam o ritmo e os sinais corporais da ave.
Apartamento (ruído): aceitável na maioria dos apartamentos portugueses, mas com reservas. Os chamamentos ao amanhecer e ao crepúsculo são audíveis através de paredes finas — não é uma ave silenciosa. Em prédios com vizinhos sensíveis ou em estúdios, pondere bem. Produz também penugem fina (pó de penas, típico das cacatuas) que se espalha pelo mobiliário e pode incomodar pessoas com asma ou alergias respiratórias.
Tempo disponível diário: mínimo 1-2 horas de interacção activa e mais 1-2 horas fora da gaiola sob supervisão. Quem passa 10-12 horas fora de casa deve considerar adquirir um par (duas fêmeas ou casal já compatível) para que se façam companhia. Em Portugal é obrigatório que a ave tenha anel fechado de criador com identificação de origem — exija sempre o anel ao adquirir e guarde a documentação. A caturra não consta nos anexos CITES mais restritivos, pelo que não exige declaração ao ICNF, mas o anelamento legal é inegociável.
Custos em Portugal
Aquisição (ave): 60-100 € para um exemplar cinzento ou lutino jovem em criador anelado português; 100-200 € para mutações menos comuns (arlequim de qualidade, pérola, cara-branca). Desconfie de preços abaixo de 40 € em lojas generalistas — frequentemente correspondem a aves sem anelamento legal ou de origem duvidosa.
Setup inicial (gaiola, poleiros, brinquedos): 150-300 €. Uma boa gaiola/voadeira de 80×50×80 cm custa 120-220 €; poleiros naturais de madeira não tratada 15-30 €; conjunto inicial de 4-5 brinquedos 30-60 €; comedouros, bebedouro e balança digital 20-40 €. Não poupe na gaiola — é o espaço onde a ave passa a maior parte da vida.
Mensal (sementes/ração, frutas, enriquecimento): 15-30 €. Saco de 1 kg de extrudido premium dura cerca de um mês e custa 12-18 €; sementes de mistura premium 4-8 €; fruta e vegetais frescos partilhados com a família; ossos de choco, grit e brinquedos novos rotativos somam mais 5-10 €.
Veterinário aviário/imprevistos: consulta de rotina anual num veterinário aviário em Portugal custa 50-90 €; análise fecal e exame geral inicial 80-130 €; sexagem por DNA 25-40 €. Em emergência (retenção de ovo, infecção respiratória, traumatismo por voo contra vidro) conte com 150-400 € por episódio. Recomenda-se reservar fundo anual de 200-300 € para imprevistos. Existem seguros para animais exóticos em Portugal (Fidelidade, Liberty), mas a cobertura para aves ainda é limitada.
Perguntas frequentes
O nível de ruído é considerado moderado entre os psitacídeos — bastante mais baixo do que uma cacatua grande ou um conure, mas claramente audível. Espere chamamentos altos ao amanhecer e ao fim da tarde durante 10-20 minutos, e assobios e cantos espalhados ao longo do dia. Em apartamento é viável, desde que os vizinhos não sejam particularmente sensíveis e que a sala onde fica a gaiola não confine com quartos de prédios contíguos.
Comparar com…
Veja Caturra lado a lado com outra raça: ficha técnica comparada e veredicto dimensão a dimensão.
Actualizado em